Museu das Flores

Setembro 2020

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Dia Internacional dos Museus - Marfim do Mar

Exposição Virtual: https://www.artsteps.com/view/5ee65086394dc04791e058c0

Objetos em osso mandibular e dente de cachalote

O termo scrimshaw, em sentido restrito, significa a produção de objetos em osso mandibular de cachalote, dente e barbas de baleia, por baleeiros da frota norte-americana, nos momentos de descanso durante as longas viagens de pesca. Servia como forma de entretenimento e materializava uma expressão de saudosismo bem compreendido, pois as viagens duravam entre dois a quatro anos. Muitos desses objetos foram produzidos para oferecer a entes queridos, no regresso a terra, e assim se mantiveram como testemunhos de afetos, permanecendo como memória dessa circunstância. A tradição baleeira foi continuada por artesãos que prosseguiram essa manifestação artística no arquipélago dos Açores até aos nossos dias, com especial incidência no Faial e Pico.

“Os trabalhos executados em dente e osso de cachalote (Physeter macrocephalus L.) são uma das mais importantes manifestações da arte açoriana do século XX, tendo-se desenvolvido no culminar de um longo processo de relacionamento dos habitantes do arquipélago com o gigante dos mares.”[1] Essa relação teve início nos primórdios do povoamento e prolonga-se até à contemporaneidade, sob várias formas de aproveitamento. Nos Açores, o cachalote sempre foi designado por baleia, podendo atingir excecionalmente os 21 metros de comprimento e as 60 a 70 toneladas de peso[2], criando nos humanos uma relação de fascínio e medo.

Desde a Idade Média que o rei detinha o monopólio dos impostos da baleia e manteve essa prerrogativa nos novos territórios descobertos e povoados, não raras vezes, provocando focos de tensão entre a autoridade camarária, preocupada com a saúde pública, e a alfândega interessada em arrematar o achado para daí cobrar o respetivo tributo. Até meio do séc. XIX, os açorianos relacionaram-se com a baleia através do aproveitamento de animais mortos, arrojados à costa[3] cuja gordura derretiam para aproveitamento na luminária.

Em meados do séc. XVIII, ocorreu uma grande alteração na baleação atlântica com os pescadores da Ilha de Nantucket, depois seguidos pelos ingleses, a praticar uma pesca e transformação itinerantes de cachalotes nas costas do Brasil e nos mares dos Açores[4], com a intenção de obter óleo a partir da gordura para iluminar as cidades que cresciam rapidamente e o espermacete (óleo do interior da cabeça) para alimentar as fábricas de velas de Rhode Island, Providence, Germantown (Boston) e Nova Iorque. A primeira metade do séc. XIX corresponde ao período áureo da baleação itinerante da jovem república e à intensificação dos contactos com as gentes das Flores, que remontam ao último terço do século anterior e prolongam-se até aos primeiros anos da centúria de novecentos. Foi por essa via que muitos jovens do grupo ocidental do arquipélago dos Açores fugiram em direção à fortuna mais sonhada que vivida[5], criando uma originalidade na emigração nacional ao mudar o destino do Brasil para os Estados Unidos da América.

A partir da segunda metade de Setecentos, as baleeiras americanas encaram os Açores, em particular as ilhas das Flores, Corvo, Faial e Pico, como local de refresco e recomposição de tripulações.[6] Cedo os açorianos, levados pelo sonho americano, embarcaram e aí contactaram com essa forma de artesanato, trazendo para as ilhas valioso espólio e o conhecimento de trabalhar o osso e marfim. A pesca à baleia a partir de estações costeiras, iniciada nos Açores, por meados do séc. XIX, forneceu a matéria-prima para os açorianos prosseguirem tal prática. O porto da Horta tornava-se a escala preferencial de abastecimento e entreposto de desembarque de óleo destinado aos Estados Unidos da América.[7] Contudo, as ilhas das Flores e Corvo assumiram também papel relevante no refresco e reposição de tripulações. Muitos foram os naturais destas ilhas que prosseguiram a faina e tornaram-se oficiais, capitães e armadores de navios das praças americanas.[8] O seu reconhecimento como intrépidos marinheiros ficou plasmado em Moby Dick, obra prima da literatura mundial: “Um não pequeno número de baleeiros provém dos Açores, onde os navios de Nantucket lançam ferro frequentemente para completar tripulações com os sólidos camponeses dessas ilhas rochosas. (…) Não se sabe porquê, mas é dos ilhéus que saem os melhores baleeiros.”[9]

 É nas ilhas ocidentais do arquipélago açoriano que se encontram as melhores coleções públicas e privadas de objetos em osso e marfim de cachalote, testemunhos das trocas artísticas transatlânticas mediatizadas pela baleação.[10]

De acordo com os contextos socioculturais de utilização, podemos classificar esta arte nas seguintes categorias: objetos destinados à faina marítima (espiches, alisadores de costuras de velas…), utensílios domésticos (rolo e carretilhas para cortar massa, agulhas para tricotar, dobadouras, jogos) acessórios de vestuário (talas de corpete, botões, brincos, bengalas…) e peças decorativas (gravura, escultura e torneamento em osso e dente de cachalote).[11] Estas peças assumiram funções decorativas e simbólicas. Representavam um período de prosperidade, o sucesso material daqueles que se propuseram a tal empreendimento. O dinheiro proveniente da emigração americana que teve retorno permitiu uma considerável melhoria de condições económicas, refletida na construção de novas casas e na aquisição de terras.[12] Houve uma assinalável transferência de propriedade, tema ainda não estudado.

Inspirada nos trabalhos dos baleeiros da frota estado-unidense, a arte de produzir trabalhos em osso e dente de baleia medrou nos Açores a partir do primeiro terço do séc. XX. O osso teve maior incidência na produção de ferramentas ou seus constituintes e o dente em peças decorativas de grande valor estético. A partir da década de 50, no Faial e Pico, começa a aparecer uma produção de carácter recordativo, especialmente destinado aos viajantes, que se estende até à atualidade.

A temática versa sobretudo a figura humana, cenas de pesca, embarcações e respetiva palamenta, raramente assuntos religiosos. As técnicas mais utilizadas são a incisão e a gravação, efetuados a buril, sendo os entalhes pigmentados com tinta da china. Depois de meados do séc. XX surgiram os motivos insculturados, alguns em alto-relevo.

A erupção do vulcão dos Capelinhos, na Ilha do Faial, em 1957, provocou uma onda de destruição e tornou imprópria para a agricultura uma grande mancha do território faialense. Foi mais uma vez a fuga para a América que tirou da condenação à miséria milhares de pessoas, não só desta ilha mas também das outras ilhas do arquipélago que aproveitaram a oportunidade. Papel determinante teve o jovem senador John Kennedy, eleito pelo estado de Massachusetts, que conseguiu a aprovação, em Setembro de 1958, de um documento que ficou conhecido por Azorean Refugee Act, que concedeu um visto de emigração a 1500 chefes de família, mais tarde aumentado para 2100, correspondendo à saída imediata de 12 000 pessoas, que nas décadas seguintes, através do mecanismo de reunificação familiar, permitiu a partida de 175 000 açorianos para os Estados Unidos.[13] Foi ao scrimshaw que recorreu uma embaixada destes emigrantes que foi reconhecidamente agradecer todo o empenho que o já presidente John Kennedy havia posto na produção e promulgação de legislação favorável, oferecendo-lhe o brasão da cidade da Horta, esculpido em marfim de dente de cachalote.

Levam então os açorianos quase seis séculos de relacionamento com a baleia que foi assumido de várias formas: obtenção de óleo, aproveitamento de ossos e dentes para fins utilitários, decorativos e simbólicos, porta de saída para a emigração, forma de mitigar as crises de subsistência conhecidas nos séculos XVIII e XIX, e, terminada a pesca, por imposição internacional, forma de diversificar a oferta turística, através de arriadas destinadas à observação de cetáceos, absolutamente integradas nos valores conservacionistas, próprios dos tempos que correm.

[1] Rui de Sousa Martins, “Das baleias e dos homens em terras e mares dos Açores”, Prefácio à obra João António Gomes Vieira, O homem e o mar — Artistas portugueses do marfim e do osso dos cetáceos, Açores e Madeira. Vidas e obras, s/l, edição do autor e Intermezzo-Audiovisuais, Lda, 2003, p. 13.

[2] João Manuel Anjos Gonçalves, “Actualização de conhecimentos sobre a biologia e ecologia do cachalote”, anexo à reedição da obra de José Mousinho Figueiredo, Introdução ao Estudo da Indústria Baleeira Insular, Pico, Museu dos Baleeiros, 1996, p. 233. Trata-se de um excelente trabalho sobre os aspectos biológicos do cachalote que tem nas águas açorianas um quadro favorável à sua existência.

[3] Cf. Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, Livro III, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta, 1971, pp. 108-109.

[4] Cf. Arquivo dos Açores, ed. fac-similada da ed. de 1892, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, vol. VI, 1983, pp. 7-9; Donald Warin, So Ends This Day. The Portuguese in American Whaling 1765-1927, Massachusetts, University of Massachusetts, 2010, pp. 70-71 e João Augusto da Silveira, Anais do Município das Lajes das Flores, Lajes das Flores, Câmara Municipal das Lajes das Flores, 1970, p. 171.

[5] Sobre a emigração das Flores para os Estados Unidos, veja-se Luís Filipe Nóia Gomes Vieira, O Concelho de Santa Cruz das Flores (1890-1920) Entre a Estagnação e o Progresso, (policopiado) dissertação apresentada à Universidade dos Açores para a obtenção do grau de mestre em Património, Museologia e Desenvolvimento, Universidade dos Açores, Ponta Delgada, 2012, pp. 99-101 e Francisco António Nunes Pimentel, A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua História), Lajes das Flores, Câmara Municipal das Lajes das Flores, 2003, pp. 455 e seguintes.

[6] Sobre o tema, veja-se Ricardo Manuel Madruga da Costa, A Ilha do Faial na logística da frota baleeira americana no «Século Dabney», Horta, CHAM e OMA, 2012.

[7] Id. Ibid.

[8] Sobre o tema, veja-se João António Gomes Vieira, O Homem e o Mar. A Participação Portuguesa na Baleação Americana, s/l, Ed. de autor, 2007.

[9] Herman Melville Moby Dick, s/l, Editores associados, s/d.

[10] Rui de Sousa Martins, Ob. Cit., p. 18.

[11] Id., ibid.

[12] Luís Filipe Nóia Gomes Vieira, Ob. cit., pp. 129 e seguintes.

[13] Jornal Sol. Consultado no endereço https://sol.sapo.pt/artigo/115732/kennedy-abriu-portas-a-emigracao-de-175-mil-acorianos-para-os-eua, em 14.05.2020.

Data Inicial
2020-05-18
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